quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A menina que se perdeu no caminho

 21 de março de 1998.
- Ola? quanto tempo levo de Paris a Nova Zelândia?
- Não sei lhe dizer, pequena menina.
- E quanto tempo levo para me sentir um pouco melhor?
- Esta tudo bem menina? Lhe vejo pasma.
- Estou perdida em meio a um mundo gigantesco, e realmente vejo que não tenho saídas.
- Como não? E seus pais? São desnaturados que não lembraram de lhe abrigar em suas casas? Tens filhos para lhe deixares jogados no mundo? De onde vens esta beldade de menina, tão inocente e ingênua?
- Meu senhor, preciso que me ajudes, não sei quem meus pais são, não sei de onde vim, de como vim parar em um lugar tão distante.
- Como sabes que aqui é distante se não sabes de onde veio?
- Andei, andei mais do que deveria. Andei sem rumo na escuridão de meus dias, me perdi sem ao menos saber se por onde andei estava no caminho certo e agora desejo mudar de vida. Afinal onde estou?
- Menina, nem sei como irei lhe ajudar. Estou tão distante quanto você.
- Me dê abrigo e uma fatia de pão. Me deixe passar uma noite abrigada, me deixe ter esta experiência. Senhor, peço-lhe e imploro-te ajuda. Lhe retribuirei tudo o que de bom me oferecer.
- Menina, tu mal me conheces e queres que lhe dê abrigo. Confias muito em pessoas desconhecidas, muitos podem lhe fazer mal, podem á matar e mal saberás o por quê de ter perdido a vida, não seja ingênua menina.
- Não saberei se as pessoas são boas se não me aproximar delas e tentar descobrir. Se más elas forem logo sabereis e se me machucares logo  esquecerei, pois além de um abandono, aprendi a ser forte e encarar tudo o que em minha vida acontecer.
- Tu não sabes o que dizes. És tão pequenina e achas que tens moral de dizer absurdos, o mundo és perigoso demais para pensar que tudo no final dará certo. Que aprenderá com tudo o que viver, pois a questões é, se viver.
- Não tenho medo, se tivesse talvez não chegarias até aqui, não estava em sua frente lhe pedindo um abrigo, lhe pedindo ajuda, lhe pedindo comida.
- Tens sorte de encontrar alguém que não faria mal nem á uma mosca, que não és bruto como muitos em nosso mundo.
- O senhor me darás o que lhe peço?
- Seria simples poder lhe ajudar.
- E por que não podes ser? Tens medo de ajudar ao próximo?
- Se o medo me fosse o problema já não estaria aqui em sua frente, o problema vai além de um simples medo.
- Diga-me que não queres me ajudar de uma vez. Diga-me que seria um intruso em sua vida. Diga-me que jamais ajudaria uma menina de treze anos " tão inocente e ingênua". Negue-me de uma vez ajuda. Negue-me. Irei embora sem ao menos olhar para traz. 
- Menina, como gostaria de lhe ajudar, como gostaria de dizer que poderia lhe dar tudo o que tanto desejas. Mas não poço o fazer.
- E me respondas de uma vez, o que lhe impede de fazer isso? 
- O mesmo que lhe impede de saber da verdade.
- O que me impedes? Vi o senhor de longe e tive curiosidade. Pensei que receberia ajuda. Mas vejo que fui iludida. 
- Um dia entenderás o que lhe falo. Um dia saberás da verdade. Lhe conheço mais do que imaginas. Mesmo sem conhece-la. Algo me liga a você. 
- Não lhe entendo, senhor. Me deixas confusa com todas essas palavras sem explicações. 
- Estou velho, tenho problemas de saúde. Tenho poucos dias de vida, talvez este seja o último. Sinto que meu fim esta chegando. Que nada mais sera da maneira que tanto quis. Esperei minha vida toda por um momento como este, com uma pessoa como você, que marcou minha história, que foi perdida em meu caminho. Que Deus lhe abençoe em sua vida minha menina. Que tudo o que de bom desejas se realize. Peço a Deus que lhe conceda a família que nunca pode ter. E me perdoe por lhe abandonar. 
- Onde o senhor desejas chegar? Por que pede-me desculpas? Mal o conheço, senhor.
- Adeus! Que toda a positividade conspira a seu favor minha menina. 
 O senhor já velho, passa mal e acaba falecendo. A menina sente-se culpada por sua morte. Por ter lhe tratado mal. 
 O corpo de bombeiros é chamado pela população, o velho senhor é encaminhado para o IML. A menina sem saber o que fazer, sem rumo, acaba se deitando em meio a sacolas plásticas para não chamar a atenção de todos os que visitavam a rua. 
 Ao acordar na manhã seguinte, alguém a toca carinhosamente. Sem entender, com os olhos ainda embasados, a menina levanta-se e vê que já não encontra mais ninguém ao seu lado. Nota um envelope em cor neutra, papel envelhecido, aparentemente uma carta antiga. Abre a carta que estava escrita a tinta, e começa a ler. 
 " O fim de tudo um dia nos surpreende. Não somos sempre certos e vencedores. Somos pessoas que aprendem a viver adequadamente a vida, na maior das amarguras que podemos imaginar. Erramos, sempre tem algo que é mais forte que nós mesmos. Porcaria de bebida. Um velho gaga, um velho que não soube  valorizar as pessoas desde o dia em que se fez vivo, se arrepender de errar é fácil, mas se sentir um "nada" a vida toda é um pesadelo sem fim. Estarei mentindo se disser que um dia em todo o tempo vivo fiz alguém feliz. Vejo espelhos meus a se criarem tão perto de mim e como tolo, não faço nada para ajudar. E o que um velho babão poderás ensinar a alguém? Se nem ele mesmo em anos soube fazer a si próprio? Sim, um velho que poderia se dizer inexistente, que sempre apontou defeitos que as vezes nem existiu em pessoas que estavam felizes e vivendo em paz com suas famílias sem incomodar alguém. Sim, eu vivi só pra ocupar espaço e provar que havia mais um mendigo no mundo. Eu assumo o quanto fui fracassado. Mas a culpa não é só minha, sou espelho de meu pai, que nunca me mostrou um caminho, nunca me disse que estava errado. E assim como meu pai, criei meus filhos do mesmo jeito. Sem lhes dizer que estavam errados. Minha menina. Onde errei com meus filhos? Ou seja, onde acertei com eles? Sem respostar. Minha neta, filha de um filho meu. Me perdoe por ter errado com meus filhos e fazeres você sofrer tanto minha pequena. Desculpe-me se lhe neguei ajuda, é por que nem eu tinha onde me abrigar e um fatia de pão para lhe oferecer. Desculpe-me pelo fracasso de pai que fui para meus filhos. Busque por eles, tente os encontrar. Você esta em Paris e até Nova Zelândia deve levar aproximadamente 16403 quilômetros. E vá lutar pelos seus sonhos minha menina. Não seja como seu avô, um fracasso. Tenha objetivos a seguir..."
 A menina lê a carta sem acreditar que seu avô estava tão perto, e que naquele momento já havia partido. Ela levanta-se e disposta a fazer exatamente o que seu avô lhe disse. Não queria ser mais uma fracassada, sem objetivos.
 Se a questão fosse apenas a de se perde no caminho, tudo seria mais fácil de ser resolvido. Afinal poderíamos achar uma outra saída. Mas quando vemos que a cada década as pessoas continuam amargas e sem interesses, percebemos que talvez a culpa não seja apenas daquele que erra, e sim daquele que o ensinou a não ter objetivos e responsabilidades. O mundo muda. E muitos continuam a viver como se tudo tivesse voltando ao passado. A vida anda e não volta para atras. Mas muitos sofrem a acreditar que isso acontece, realmente. 
 Rafaela Bortese

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