Olhos envelhecidos, boca carnuda sem desenhos, cabelos grisalhos, corpo envelhecido, pele descuidada. Vida dura, vida sofrida.
Nordeste, vinte e cinco de dezembro de 1970.
- Pai, amanhã se comemora o dia de natal.
- E daí? Qual será a diferença?
- É dia de ganhar presentes.
- Dia de quê? De ganhar presentes? Acha que já não esta grande pra pensar em ganhar presentes?
A menina descontroladamente começa a chorar. Sem medir consequências, seu pai pega um fio de arrama com ferpa, que estava ao lado de alguns galhos já secos, agarra-a pelo braço esquerdo e começa a bater sem parar, até o rosto da menina ficar todo ensanguentado. A menina perde seus movimentos e cai desnorteada ao chão. O pai a deixa caída sem ao menos tentar a reanimar e vai até a cozinha beber um copo com água. Madalena, chega em casa, depois de uma manhã de trabalho, e vê sua filha caída no chão desmaiada. Vai correndo até a cozinha pegando rapidamente um pano e logo em seguida leva até uma torneira e molha-o em água fria. Corre até sua filha e põe o pano sobre sua cabeça por alguns estantes, tentando reanima-la. Segundos depois sua filha começa a soluçar em choro ardente. Sem entender, Madalena deixa sua filha apoiada sobre um tronco de árvore e segue em direção ao quarto onde seu marido supostamente estava.
- Me dê explicações sobre o absurdo que acabas de cometer.
- Não devo explicações. Nada fiz de errado.
- Então me dizes que não fez nada. E nossa filha esta toda coberta de sangue, por que motivo?
- Ela, sou eu quem educo. Ninguém manda me desafiar.
- E o que de errado ela fez para lhe tratar de uma maneira tão rude? Se enxergues antes de cometer absurdos. Ninguém merece ser tratado de tal maneira, a não ser você. - Joaquim a pega pelo braço.
- Olhe a maneira como falas comigo, sua vadia.Sabes muito bem que não meço esforços para fazer o mesmo com você.
- Pois faça, prefiro eu ser mal tratado do que ver minha filha naquela situação.
- Sabes que não podes brincar comigo. Não me desafie. Ou.
- Ou o que? Você vai me espancar? Vai me ferir? Var se acovardar?
Joana entra no quarto quase sem movimentação em seu corpo.
- Não briguem por minha causa. Mãe, não se omita a sentir o que sinto.
- Menina mal educada. Saia já deste quarto. Ninguém lhe pediu para aproximar-se.
- Desculpa, eu só queria...
- Que eu lhe pedisse desculpas? - Risos - Não sabes mesmo como chamar a atenção. Sabes que és um intruso em minha vida. Nunca irei lhe pedir desculpas, pois sou eu que mais estou certo nesta história toda. Veja bem, eu que a sustento, não tens direito algum sobre esta casa. Você mãe e você filha, uma vadia e outra futura. Nunca vão ter o que querem. Que é se livrar de mim. Vocês sabem que não viveriam sem meu dinheiro. Tenho pouco, mas vocês menos ainda.
Joana sai do quarto. Sabe que sempre é seu pai quem esta certo. Vive em um lugar tão grande mas não pode desfrutar de nada. Pois acredita que, como seu pai disse, precisa do dinheiro dele para manter-se viva. A discussão acaba. Mas o terror não.
Os dias eram difíceis, Joaquim trabalhava em um capinzal. Madalena era agricultora. E Joana era obrigada por seu pai a trabalhar em uma carvoaria. Onde todo o dinheiro deveria ser entregue ao pai.
Piracetetuba vinte de novembro de 1989
- Pai, estou gravida.
- O que? Sua vadia. Eu sabia. Eu sabia que iria ser igual a sua mãe, que Deus a tenha. - Ele a bate no rosto
- Me bata. Pode bater. Pode bater o quanto quiser. E cale-se ao falar de minha mãe. Que foi morta por você. Diz a polícia que não. Mas me tenho na mente as marcar de violência. Sim. Eu sei exatamente tudo o que aconteceu naquela noite. Você a espancou com golpes de machadadas. Por que segundo você ela nunca poderia lhe deixar. Pois se tua não fosse, não serias de mais ninguém. Seu miserável, assassino. Lembro-me de todas as vezes em que me bateu, até quase me levar a morte. Assim como lembro de ver minha mãe, mesmo fraca tentando me defender de você. Seu psicopata. Seu infame. Tu sim deverias morrer. Minha mãe, - começa a chorar- é quem deverias estar viva. Nunca fez mal a alguém, e não merecias morrer da forma que morreu.
- Tu não sabes o que dizes, sua vadia.
- Sei o que digo. E sei do que é capaz. Minha vida inteira sofri de maus tratos e achas que hoje não sei que não preciso de teu dinheiro para me manter viva? Sei também que seu dinheiro, é.. aquele que ganhavas com seu trabalho, gastavas tudo com as damas, e nos dava moral?! Seu infame.
- Onde foi que errei com você? Lhe dei sempre tudo o que queria. Nunca lhe faltou nada. Nunca lhe faltou comida na mesa. E o que recebo? Mentiras? É isso que recebo depois de anos lhe dando tudo o que precisava?
- Nunca comida me faltou. O me faltou, é o essencial. Que nunca recebi do senhor. Amor, carinho, atenção. O que me destes ao longo da minha vida. Foi apenas ferimentos para cuidar. Onde cicatrizes ainda estão comigo.
- Com isso ninguém vive. Isso é coisa de desocupados. Que não teen o que falar e ficam achando desculpas, e que comigo não tem vez.
Joaquim continua a ser aquela pessoa amarga e bruta de sempre. Mas pela primeira vez se cala ao ver que sua filha já sabe varias coisas que não deveria. Fica sem alternativas para bater de frente com sua filha. Mas Joana jamais esquecera o que ele lhe fez e nunca o perdoa-rá pela morte de sua mãe.
- Quem é o vagabundo que a engravidou?
- Pode chama-lo da forma que quiseres. Não lhe devo satisfações de minha vida. Sei bem o que irá fazer se lhe contar quem é. Apenas lhe digo que estou saindo de casa. E pra não mais voltar. Fique com Deus.
- Vai sair de casa sem me dizer ondes vai? Me diga, onde foi que errei?
- Onde você acertou, afinal? Adeus. Minhas coisas já estão prontas. Que tudo o que fizestes contra mim e minha mãe não volte contra o senhor.
Joana segue em frente, sem ao menos olhar para trás. Barriga pesada, vinte semanas de gravidez. Seu marido, João da Glória, a espera á alguns quilômetros da casa onde Joaquim habitava. E um novo recomeço esta por vir.
Piracicaba vinte de agosto de 1993.
Joana, João da Glória e Maria da gloria trabalham na agricultura, cultivo de mandioca. São harmoniosos e cheios de entusiasmos. Sonham em conhecer a praia. Joana nunca mais teve notícias de seu pai. Mas algo a fazia se sentir mal ao pensar nele. Tinha impressão que o sofrimento ainda não tinha acabado. E tinha medo, muito medo.
Dias após sua filha completar quatro anos, eles realizaram o grade sonho de ir á praia. As festividades foram grandes. Dias de alegrias jamais esquecidos.
Piracicaba vinte e cinco de dezembro de 1993,
- Meu Deus. Que barulhos são esses? Parece-me que alguém tenta abrir a porta. - Diz Joana em voz silenciosa a seu marido.
- O que sera esta acontecendo? Será que é uma invasão?
- A cada vez estas mais fortes as batidas. Levante-se comigo. Vamos até o quarto de Maria, e ficarmos ao lado dela.
- Vamos rápido, antes que abram de vez a porta.
Eles seguem em um corredor escuro, onde cada vez mais as batidas vão aumentando. E por um momento elas param e em seguida as janelas do quarto do casal é aberta. Eles chegam ao quarto da menina e veem que ela não se encontra mais nele. Ficam sem saber o que fazer. Paralisados. Quando a menina entra pela porta, aparentemente estava no banheiro.
- Mãe, pai? O que estão fazendo aqui? - Eles ficam aliviados.
- Fala baixinho minha filha. As pessoas podem escutar.
- O que esta acontecendo mãe? Estou com medo. - E os estralos de taboas se aproximava cada vez mais. João tranca a porta tentando achar algo para se protegerem. Eles contam baixinhos, enquanto os as taboas estralam a poucos passos até o quarto da menina.
- Um, dois ... - A porta se abre.
Trinta de novembro de 1994.
- Eu acreditei que um dia poderia ter paz. Eu pense que meu pai não iria mais me incomodar. Iria me deixar viver, conquistar tudo o que eu quisesse. Mas ele me tirou tudo o que por anos consegui conquistar. Me tirou minha filha, meu marido, as únicas pessoas, além de minha mãe, que realmente me amaram e me fizeram me sentir realizada. Hoje já não tenho nada. Meu pai conseguir fazer minha vida virar amargura. Tenho saudade de minha mãe, tenho saudade da minha filha, ohh minha filha, que tanto amei, tenho saudade do meu marido, que aprendi a amar, e que ainda amo. Meu pai me tirou meus maiores tesouros. Matou-me, assim como fez com minha mãe, minha filha e o João da Glória. Acho que nasci para sofrer, para perder. Não sei como irei me reerguer. Não sei se Deus irá me perdoar por ter matado meu pai, mas o meu ódio, minha mágoa era tanta, que alguém precisaria morrer.
Rafaela Bortese
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